Guia de fotografia do céu noturno com DSLR: parte 1

Câmeras DSLR têm se tornado mais populares, mas ainda são caras no Brasil. DSLR é o acrônimo de Digital Single-Lens Reflex, e essas câmeras geralmente possuem um sensor do tipo CMOS, que captura a luz e transforma a informação obtida em imagens. Sensores parecidos (CCD) são muito utilizados em astronomia, e na verdade tem uma história interessante por trás deles: é por causa da astronomia que quase todos nossos gadgets e câmeras digitais usam essa tecnologia; se não fosse pelo fato de os astrônomos se interessarem em utilizar os CCDs mais eficientes e mais baratos, os cientistas do Bell Labs teriam jogado o protótipo fora, porque eles não tinham um uso para a descoberta. Em outras palavras, foi a astronomia que tornou os CCDs acessíveis para o público! Bom, pelo menos é o que diz a história contada entre os astrônomos.

De qualquer maneira, como as câmeras DSLR¹ trazem dentro delas o mesmo sensor utilizado em astronomia, é possível utilizá-las para fotografar o céu noturno de maneira bastante similar ao que astrônomos profissionais fazem. Esse é um hobby muito prazeroso, mas também pode consumir bastante tempo e ser frustrante, às vezes. A curva de aprendizado é íngreme. Mas você pode sempre começar com passos curtos. Neste tutorial, que é a parte 1, vou guiar o leitor pelas maneiras mais fáceis e efetivas de fotografar o céu noturno. Na parte 2 (que será publicada posteriormente a esta), vou mostrar o caminho para o estágio mais avançado que eu atingi até agora, sem um telescópio².

Como eu ainda me considero um iniciante, sugestões a este guia são sempre bem-vindas, e eu vou manter o post atualizado.

Equipamento necessário

Aqui estão os equipamentos necessários para fazer imageamento com uma DSLR. Tenha em mente que os preços aqui listados são para produtos novos, de nível iniciante e também são aproximados.

  • Câmera DSLR + lentes de fábrica: R$ 2000 no Brasil; € 300 ou US$ 375 no exterior.
  • Cartão SD classe 10: por volta de R$ 100, nos vendedores confiáveis. Compre um cartão com a maior classe que puder, senão você sofrerá com salvamento de dados muito lento.
  • Um tripé: a partir de R$ 120.
  • Um bom computador: necessário para fazer o processamento das imagens. Recomendado: algo com, no mínimo, nível de processamento de um Intel Core i5 de 3ª geração, com pelo menos 8 GB de memória RAM.

Itens não obrigatórios, mas altamente recomendados:

Configurando as opções da câmera

O primeiro passo é conhecer a sua câmera: leia o manual, transforme-a na sua melhor amiga. E depois saia à noite com ela. Eu digo isso porque: 1) você vai mexer nela no escuro, então é imprescindível saber como controlá-la; 2) imageamento do céu noturno não pode ser feito com um modo de fotografia de fábrica: ele tem que ser feito em modo completamente manual, não tem piloto automático! Então quanto mais você conhecer a sua câmera, melhores serão os resultados. Além disso, também ajuda bastante se você souber a nomenclatura e os jargões usados em fotografia.

Se você já conhece bem a sua câmera, está na hora de começar a tirar fotos. As configurações da câmera vão depender basicamente de dois fatores: o nível de poluição luminosa e a fase da Lua. Se você mora em um lugar com muita poluição luminosa ou se a Lua está cheia, é provável que você queira diminuir a quantidade de luz que quer capturar. Do contrário, você vai acabar com um fotografia muito vermelha (poluição luminosa) ou uma que parece que ainda está de dia (causado pela iluminação da Lua – mas algumas pessoas gostam de fotos com esse efeito, talvez porque pareça um pouco surreal – fica a seu critério). Há 3 maneiras de controlar quanta luz você quer que entre na câmera:

  • ISO: controla a sensibilidade do sensor à luz
  • Razão focal (ou F number): controla a abertura da pupila da câmera
  • Tempo de exposição: controla quanto tempo o obturador da câmera permanece aberto depois de você dispará-lo; também é erroneamente conhecido como velocidade do obturador, mas esse parâmetro não tem nada a ver com a velocidade de disparo do mesmo

Para todos esses fatores, quanto maior o número, mais luz você vai capturar, mas você também vai pegar muito ruído se o ISO é alto (eu recomendo não passar de 800, mas vai depender do objeto que estiver fotografando).

Foco no infinito

A função auto-foco que a maioria das DSLR têm precisam de um mínimo nível de contraste para funcionar, e como o céu noturno não tem quase nenhum contraste, você vai ter que fazer o foco manual. Nós precisamos encontrar o ponto de foco no infinito. E tem um truque simples para fazer isso. Procure uma fonte de luz bem distante e bem forte (como a ponta de uma antena de rádio nas montanhas, ou a luz da janela de uma casa distante); aí, utilizando o live view (imagem na tela digital), aumente ambos o zoom ótico e digital até o máximo. Se a sua câmera não tem tela digital, você vai ter que se virar somente com o zoom ótico. Então, faça o foco manualmente até que a fonte de luz esteja o mais nítido possível: este é o ponto de foco no infinito. Não mude a câmera para auto-foco depois de fazer isso, senão você vai perder o ponto no infinito.

Fotografando

Antes de sair tirando fotos, tenha em mente que quando o obturador da câmera é disparado, qualquer movimento na câmera, por menor que seja, irá afetar a imagem. Em uma situação ideal, você não deveria tocar na câmera. Por isso eu recomendo a utilização de um controle remoto. Se você não tem um, a melhor saída é usar o timer da câmera, e com isso ela vai ter tempo para estabilizar.

Para marinheiros de primeira viagem, eu digo: escolha uma região do céu que é próxima à Via Láctea, coloque a ISO em 800, a maior abertura possível, com um tempo de exposição de 10 segundos (use um tripé) e veja como as coisas saem. Se a imagem ficar muito brilhante ou muito escura, mexa no tempo de exposição ou na ISO. Lembre-se que você pode pegar um pouco de trilhas de estrelas por causa da rotação da Terra (a não ser que você tenha um daqueles tripés caríssimos que têm acompanhamento equatorial).

Por outro lado, se você está num local com céu bem escuro e sem chances de nuvens, você pode tentar tirar uma foto de trilha de estrelas (que consiste em expôr a câmera com obturador aberto por um longo tempo, como 30 minutos ou ainda mais). Eu não tenho muita experiência nisso, mas imagino que você tenha que usar uma sensibilidade ISO bem baixa e abertura pequena (de modo a não pegar muito brilho do céu), apontar a câmera para uma região próxima ao pólo celeste e disparar o obturador.

Pós-processamento

O pós-processamento às vezes não é necessário se você já está satisfeito com a imagem obtida. Este processo consiste em aumentar o contraste das cores e diminuir o brilho do céu. Para fazer isso, você muda as curvas ou os níveis da imagem. Eu uso o programa GIMP para editar imagens, e as opções para mudar as curvas e níveis estão dentro do menu “Cores”. Eu não vou te dizer como mudar essas coisas, porque basicamente você mexe nelas até estar satisfeito com o resultado: não tem segredo. As imagens a seguir foram feitas com as técnicas descritas anteriormente, e tiveram só um pouco de pós-processamento.

Imagem feita em um local muito escuro (Roque de los Muchachos Observatory, Ilhas Canárias)

Imagem feita em um local muito escuro (Roque de los Muchachos Observatory, Ilhas Canárias)

Imagem feita durante Lua Cheia (Observatório do Pico dos Dias, Brasil)

Imagem feita durante Lua Cheia (Observatório do Pico dos Dias, Brasil)

Imagem feita em um local com um pouco de poluição luminosa (lago Hoornsemeer, Países Baixos)

Imagem feita em um local com um pouco de poluição luminosa (lago Hoornsemeer, Países Baixos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E é isso, basicamente. Foi assim que eu comecei a tirar fotos do céu noturno. Acredito que a parte mais difícil é conhecer bem a sua câmera, especialmente se você é novato em fotografia. Existem muitas opções para mudar, e até hoje eu às vezes não tenho certeza sobre algumas configurações da câmera, por exemplo, como o balanço de branco pode afetar a imagem final e se eu deveria ajustá-lo manualmente. Eu ainda tenho que aprender isso. Eu sugiro que você assista alguns vídeos de fotografia no YouTube or leia alguns blogs escritos por profissionais para aprender diretamente das melhores fontes.

Céus limpos, e te vejo na parte 2 do guia!

Coisas não cobertas por este guia e que eu quero adicionar no futuro: fotografia de relâmpagos, de trilhas de estrelas, chuvas de meteoros.


¹ Por que usar câmeras DSLR? Não podemos usar a câmera de um smartphone ou uma dessas câmeras mais simples? Resposta curta: você pode tentar, mas os resultados provavelmente não vão ser satisfatórios. Resposta longa: o problema dessas câmeras é que você não tem muito controle sobre as configurações, como a sensibilidade do sensor ou a abertura. Algumas delas não permitem longas exposições e outras não deixam você controlar o foco. Imageamento do céu noturno exige configurações muito finas.

 

² É possível fazer imageamento com câmeras DSLR acopladas ao foco primário de um telescópio, e a princípio o processo não deve ser muito diferente do que eu apresentei aqui, exceto que você não vai usar lentes. O maior desafio seria conseguir arrumar um telescópio e montagem suficientemente bem alinhados e estáveis para fazer isso.

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