Observação em La Palma: finale

Gran Telescopio de Las Canarias

Domo do Gran Telescopio de Las Canarias

Escrito em 23/04/2014

O dia começou levemente amargo, afinal as próximas 24 horas seriam nossas últimas em Roque de los Muchachos (pelo menos no futuro próximo). Apesar de termos metade de nossas noites completamente bloqueadas por nuvens, eu acredito que conseguimos aproveitar o máximo possível das oportunidades que tivemos.

Mas deixando as amarguras um pouco de lado, nesta tarde pudemos visitar o maior telescópio das Ilhas Canárias, e um dos mais cobiçados na comunidade astronômica: o Gran Telescopio de las Canarias, ou Grantecan para os mais íntimos. Essa belezinha tem 10,4 metros de “diâmetro efetivo”, e eu usei aspas porque o espelho primário não é exatamente circular: ele é composto de 36 hexágonos refletores controlados de maneira a funcionar como um grande espelho.

Essa é a carinha do telescópio Grantecan

Senhoras e senhores, eis Grantecan, o próprio

O espelho do Grantecan é composto por 36 hexágonos nanometricamente alinhados

O espelho do Grantecan é composto por 36 hexágonos nanometricamente alinhados

É impossível não se sentir pequeno perto de uma máquina como essa. O domo do Grantecan é imenso, facilmente visto de vários ângulos da montanha, e a estrutura que suporta o telescópio é hipnotizante. Mais impressionante ainda é a engenharia utilizada na manutenção de tudo isso. Para se ter uma ideia, todos os 36 componentes foram feitos em duplicata, porque eles devem ser limpados com certa frequência, e isto deve ser feito componente por componente. É importante lembrar que estamos lidando com ondas eletromagnéticas com curtíssimos comprimentos de onda, o que significa que o posicionamento dos espelhos deve ser nanometricamente perfeito.

Por possuir um espelho composto, o Grantecan é dito ser um telescópio de óptica ativa, que não é exatamente a mesma coisa que óptica adaptativa (amplamente utilizada nos maiores observatórios do mundo), apesar de haver planos para a utilização desta no futuro. As principais observações feitas no Grantecan constituem em fotometria e espectroscopia de vários objetos no universo, como asteróides, exoplanetas, galáxias e fontes cosmológicas.

O espelho secundário do Grantecan e parte da enorme estrutura que sustenta o telescópio

O espelho secundário do Grantecan e parte da enorme estrutura que sustenta o telescópio

Após a visita, voltamos a La Residencia para passarmos as útlimas horas do dia se divertindo e jogando conversa fora. Eu notei que alguns de nós que antes mal interagiam entre si, após tantos dias juntos, acabaram se tornando amigos, dividindo experiências, quartos e até mesmo comida. Além de termos aprendido uma infinidade de coisas, também pudemos fazer boas amizades. Acredito que iniciativas como essa talvez sejam uma as melhores maneiras de se praticar o ensino: a experiência hands-on, a interação e o interesse dos estudantes combinados são uma ferramenta poderosa para o aprendizado.

O dia começava a acabar. Durante o por do Sol, meu professor me avisou que talvez fosse possível observar um fenômeno chamado green flash, que acontece quando se tem um horizonte bastante baixo e sem nuvens. Diz-se que em um certo ponto, a luz do Sol é refratada na cor verde, em forma de um flash que dura menos de 1 segundo. Infelizmente, devido à presença de algumas poucas nuvens, não pudemos presencia-lo.

O fim desta maravilhosa jornada foi marcado por um belo, porém um pouco triste, por do Sol

O fim desta maravilhosa jornada foi marcado por um belo, porém um pouco triste, por do Sol

Ao cair da noite, decidimos nos agasalhar bem, juntar alguns cobertores, e ir observar a chuva de meteoros Lyrids em um dos helipontos do observatório. Apesar de o pico da chuva ter sido na noite anterior, conseguimos ver alguns. E, claro, além disso também constinuamos batendo papo, o que inclusive foi bom para treinar o inglês de cada um. Devido à pluralidade de nacionalidades do grupo (um brasileiro, duas alemãs, uma tcheca, um indiano, um americano e 6 holandeses), acho que nesta semana aprendi muito mais sobre outras culturas do que eu jamais havia antes. E novamente, eu me sinto obrigado em admitir o quão orgulhoso sou da astronomia, uma ciência onde podemos ter contato com tantas pessoas diferentes e exercer nossa personalidade sem medo ou vergonha.

… E esse foi nosso último dia em La Palma. Nesse momento, estou sentado no ônibus de Amsterdam para Groningen, depois de ter pego 3 voos passando por Tenerife e Madrid. Foi uma semana inesquecível, e sou eternamente grato a tudo e a todos que me proporcionaram esta oportunidade, principalmente ao Kapteyn Astronomical Institute pela confiança depositada em mim. As amizades que cultivei e os conhecimentos que adquiri não têm preço. Mas vou ter que me preparar para uma séria onda de blues nos próximos dias.

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