Como medir um planeta?

how-to-measure-a-planet

Arte do álbum How to Measure a Planet?, por The Gathering

Quando alguém me pergunta o que eu faço, geralmente esse alguém tem uma das seguintes reações distintas à minha resposta: um insonorizado “ugh, você é um daqueles” ou um “nossa, mas isso é tão difícil!”. Em relação à última, às vezes eu me pergunto: a astronomia e a física são realmente tão difíceis de se praticar? Digo, além dos cálculos intrincados e do raciocínio razoavelmente abstrato, quais outras dificuldades estão envolvidas? Para ser honesto, alguns dos cálculos mais complicados são na verdade os que mais me interessam, tais como simulações e métodos numéricos, e mesmo que eles sejam “difíceis” de se fazer, nós temos computadores para resolvê-los, são as máquinas que fazem o trabalho duro, nós simplesmente temos que programá-las (mas eu entendo que esta parte pode não ser muito trivial).

Há um princípio em física que pode ter implicações interessantes do ponto de vista filosófico: é chamado de princípio da menor ação, que diz que, para explicar alguns dos fenômenos que vemos em nosso universo, nós temos que considerar que eles seguem um “caminho de menor esforço”. Um exemplo é a refração da luz que ela passa por lentes: ela muda o seu caminho para compensar pela mudança do meio de propagação (do ar para o vidro). Mas eu estou falando de fótons, essas partículas inanimadas que passam seus dias sendo, bem, partículas. O que dizer sobre nós mesmos? Será que nós seguimos caminhos de menos esforço também?

Se alguém me perguntar o que eu considero um trabalho difícil, geralmente cito coisas que eu não possuo (ou pelo menos acredito não ter) habilidade para fazer, como tocar bateria, desenhar cartoons, dirigir um caminhão ou gerenciar um time de engenheiros. Mas nosso conceito de dificuldade é por demais plástico e subjetivo, e por isso eu gosto de olhar esse assunto sob um outro ângulo: ao invés de me perguntar se algo é difícil/fácil ou se necessita de muito/pouco esforço para fazer, eu pergunto o que considero um desafio a ser completado. Se alguém me perguntar isto, não vou pensar duas vezes antes de responder: entender o cosmos.

O motivo pelo qual estou escrevendo isso é porque eu penso que as pessoas geralmente tem uma visão ditorcida sobre a astronomia (e outras ciências, para esse efeito). Não é incomum ver alguém espantado pelo fato de os astrônomos conseguirem extrair tanta informação sobre o universo apenas da luz, algo que soa mais como uma alquimia de ideias.

Galáxia do Triângulo

Galáxia do Triângulo, imagem obtida com apenas 6 minutos de observação em um telescópio na Espanha. Arquivo pessoal.

Obter conhecimento nunca foi tão fácil como é hoje; vivemos em uma era em que (quase) todas as respostas estão literalmente em nossas próprias mãos. O problema é que não existe uma ferramenta à la Google no cosmos, onde você pode simplesmente digitar “o que diabos é energia escura?” no céu e esperar ter respostas perfeitas e finais.

O que muitos falham em enxergar é que toda essa informação disponível para nosso bel prazer, a apenas alguns cliques de distância, simplesmente não brotou assim dos nossos traseiros, ela foi previamente colhida por mineiros do conhecimento. Não foi nada (usando o conceito mais popular da palavra) fácil para eles, nem foi para outros construir as ferramentas que compilam as informações. Não se pode simplesmente ignorar os esforços para fazer isso acontecer. Mas então, no fim das contas (ou seria no começo?), de onde veio todo esse conhecimento? A resposta é, por menos incrível que pareça, da luz.

Citando Leonardo da Vinci, como retratado na obra Thoughts on Art and Life, “[…] em meus tópicos a experiência é um guia mais verdadeiro do que as palavras de outros, visto que a experiência foi a mestra de todos grandes escritores, e por isso eu a tomo como meu guia […]”. Nesta obra, da Vinci ressalta a importância de se observar o mundo para obter conhecimento ao invés de confiar em palavras previamente escritas e em autoridades. Mas o que é a observação senão a coleta de luz por nossos olhos? AInda mais, informações podem ser obtidas através de perturbações nos arredores, que constituem os sons capturados por nossas orelhas, ou partículas no ar que excitam os receptores olfativos em nossos narizes. Esses maravilhosos órgãos compostos de camadas intrincadas de carne são os telescópios naturais de qualquer pessoa curiosa.

Meu ponto é que os astrônomos não estão fazendo nada essencialmente muito diferente do que outros cientistas ou até mesmo crianças. Todos nós compartilhamos as mesmas ferramentas básicas para explorar o universo, e se você realmente gosta disso, pode ter acesso a alguns dos “apêndices” externos (como telescópios, microscópios, supercomputadores e outros brinquedos similares) feitos especialmente para melhorar nossos sentidos de modo a capturar os mais sutis sinais à nossa volta. Não é difícil ser um cientista, basta que você se sinta desafiado a explorar.

Anúncios

Fique à vontade para comentar, aqui não há certo ou errado, nem censura de ideias. Mas, por favor, seja claro e, acima de tudo, use pontuação. Comentários ininteligíveis ou ofensivos não serão publicados.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s