Pequenas vozes quietas

The Thinker, Rodin

Uma das muitas esculturas de O Pensador de Rodin, na Galeria Nacional de Oslo. Ao fundo, um dos auto-retratos do artista holandês Vincent van Gogh. Arquivo pessoal.

Constantemente, e de fato, praticamente todos os dias, cai no meu colo um artigo ou algum texto ligado à sabatinada ideia do sentido da vida, quase sempre disfarçada em diferentes tonalidades e texturas, mas contendo basicamente a mesma essência arrebatadora e agridoce com a qual estamos acostumados. Todos os dias, eu sou lembrado do quão efêmera e pontual é a nossa existência, ainda mais quando posta em escalas astronômicas.

Em um post anterior, eu citei um artigo do blog Study Hacks, de Cal Newport, em que ele aborda uma questão postada no site Stack Exchange: um jovem aspirante a acadêmico questiona a viabilidade de estudar Matemática e Engenharia Elétrica, dois assuntos que ele diz serem suas paixões, e posteriormente fazer duas pós-graduações. O autor argumenta que a atual geração de estudantes sofre um importante efeito negativo do passion mindset.

O que eu, como aspirante a astrofísico e dotado de alguns poucos anos (que posso contar nos dedos uma mão segurando uma xícara de chá quente enquanto cato milho no teclado do computador com a outra mão, não sem antes ajustar a posição de meus óculos sobre o nariz) de experiência de vida, tenho a dizer? Eu tinha esse mesmo posicionamento há algum tempo atrás, cuja linha divisória entre ter e não ter mais é para mim não mais que um borrão discutivelmente gaussiano, e certamente ainda prego por entrelinhas que sim: vale a pena buscar fazer o que se ama.

Mas como definir objetivamente o seu chamado? Com esta pergunta, eu pressuponho, talvez ingenuamente, que seja possível tal proeza, a de tornar concreto o “amor”, um conceito que se prova tão abstrato e talvez ilusório quanto o éter pré-relativismo. Para aquele que pode se dar ao luxo de escolher, eu proponho uma solução que considero pragmática e conciliadora: tentar encontrar na sua carreira um equilíbrio entre satisfação do prazer primal, o senso de realização, e disso tentar espremer a subsistência financeira e o tempo livre (para fazer o que der na telha, investir em auto-desenvolvimento e compensar pela procrastinação). Sobreposições são permitidas e, por que não, até mesmo recomendadas.

Em ciência, nós costumamos falar em rules of thumb (regras de dedo), que consistem em um método rápido e intuitivo para fazer uma análise preliminar de uma situação aparentemente complicada. Por exemplo, nas coordenadas espaciais, fala-se muito em graus, e uma maneira rápida e fácil de se medir um arco no céu sem precisar de astrolábios ou sextantes é simplesmente esticar o seu braço para frente (ou para cima), e a medida da largura do seu dedo polegar corresponde a, aproximadamente, 1 grau. Essa é provavelmente a regra de dedo mais manjada da astronomia, e talvez o ato que tenha dado origem à expressão.

A decisão de sua carreira é por demais importante para ser completamente decidida através de uma regra de dedo, seja ela qual for (até mesmo essa que propus ali em cima), mas assim como disse, é uma análise preliminar de algo extremamente complicado. Por outro lado, estamos sendo constantemente bombardeados (como citei no primeiro parágrafo) por uma pressão externa pela busca de um sentido para nossa existência, e dentro de nós, o tique-taque insone dessa bomba-relógio nos lembra que estamos pendurados por um fio, e mais cedo ou mais tarde teremos que mergulhar indeliberadamente na morte irracional.

Se você já registrou muitos tiques e muitos taques, e o ritmo dos seus taques já não acompanha mais o dos irregulares tiques, ou para quem busca um outro ponto de vista ainda mais pragmático, eu recomendo este ótimo talk de Mike Rowe, apresentador do programa Dirty Jobs (Trabalho Sujo), do Discovery Channel. Ele argumenta que o hard work, o trabalho difícil, foi extremamente degradado pelo pensamento corrente que glorifica os resultados dos chamados bem-sucedidos e ofusca o esforço daqueles cujo serviços são essenciais para o desenvolvimento e a até mesmo sobrevivência da sociedade: sim, ele tá falando do encanador e do castrador de carneiros. Coincidentemente ou não, um “companheiro” de emissora de Mike, o especialista em efeitos visuais Adam Savage, apresentador do programa Mythbusters (Caçadores de Mitos), afirmou recentemente e eu o parafraseio: nós fizemos um desserviço à juventude; nós os aconselhamos a buscar seus sonhos, mas esquecemos de mencionar que você tem que trabalhar duro para isso.

Desde que vim morar na Holanda (e que infelizmente vou ter que deixá-la em meados de 2014), eu comecei a notar a relação ímpar que este povo tem com o trabalho: muito mais que a busca quixotesca-inversa pela paixão, os holandeses simplesmente fazem aquilo que precisa ser feito. Os cantos épicos da história deste país falam de uma população que há mais de 1000 anos luta contra uma das maiores forças da natureza, a maré, para se estabelecer em uma terra esquecida pelos reinos poderosos. Mas esse… era o único lugar que eles tinham. Quando se está no fundo do poço, não há para onde ir senão para cima.

Tal mindset prevalece até hoje em uma cultura que preza pelo valor do trabalho duro. Não é à toa que um handyman (aquele cara que faz todo tipo de serviço, como consertar o aquecedor) cobra por volta de 400 euros por sessão. Há quem esteja disposto em desembolsar essa pequena fortuna em troca de não ter a dor de cabeça, mas a maioria dos holandeses opta por aprender a se virar e fazer o que precisa ser feito.

Um dia, quando o prédio em que moro aqui estava recebendo uma demão de tinta em seus corredores, aproveitei a situação (e a amabilidade do rapaz) para conversar com o pintor holandês. Seu inglês era impecável, com o típico sotaque desta região que faz o fonema “s” soar bastante carioca, e ele ainda era versado em alemão, francês e riscava uma ou outra palavra em português. Nós trocamos figurinhas de cada um de nossos respectivos países, e ele não me chamou de louco quando eu falei que estudava astrofísica. No fim, ele me perguntou qual seria a coisa que eu mais sentiria falta daqui quando fosse embora. Respondi: as pessoas, o clima e o lago Hoornsemeer. Não obstante, me pego conversando sobre tais cotidianalidades com o vendedor na loja de queijos, o senhor do service desk de computação e a secretária do instituto de astronomia. Todos esses trabalhadores carregam em si algo em comum: eles irradiam a vontade de fazer e a felicidade inerente à realização.

Os holandeses me mostraram que você não necessariamente nasce sabendo qual o seu chamado, ou que a única porta para a felicidade é a concretização de suas paixões. Sério mesmo, quem sonha em ser um vendedor de queijo ou um consertador de aquecedores? Quando que você descobre o seu talento para ser um operador de britadeira, senão no exato momento em que pousa as mãos sobre a ferramenta? A única exceção que eu consigo pensar era o meu pai: ele me disse que, quando criança, sonhava em ser caminhoneiro. Ele era realmente um ponto fora da curva, e ainda é uma de minhas maiores inspirações para o trabalho duro. Quando eu me vejo frustrado pela dificuldade e quantidade de trabalho, nada me traz mais conforto do que me lembrar de seu legado, ele não mediu esforços em fazer o que tinha de ser feito. A opção dele (teria sido a única?) foi trabalhar para me dar, direta ou indiretamente, o privilégio da escolha.

Por mais paradoxal que isso possa parecer, talvez a única coisa que nos faça abrir os olhos para saltar do avião seja a proximidade com a morte (a sua ou de um ente querido). O exato lugar em que você pousa é incerto, o trajeto até o chão pode ser bastante turbulento, e existe a chance de o pára-quedas falhar. Mas alguém já comprou a sua passagem, o avião já decolou e você tá lá em cima. Cedo, tarde ou nunca, você irá saltar.

Para onde vamos?

Para onde vamos?

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