Primeiras impressões de Cosmos: A Spacetime Odyssey

Antes de mais nada, situemo-nos no meu contexto: em meados de 2012, quando eu ensaiava meus primeiros passos em astrofísica, eu recebi a recomendação de um seriado/documentário antigo, da década de 80, que abordava astronomia e cosmologia de uma maneira jamais vista na televisão. Eu costumo dizer que pela minha veia cinéfila corre um sangue mais ávido por documentários do que a ficção (uma desculpa para livrar minha consciência do peso de nunca ter assistido alguns clássicos do cinema), e não poderia deixar esse passar em vão. No entanto, a ideia de este possuir 13 episódios de quase 1 hora de duração, cada um, não me agradava muito: eu tenho um intervalo de atenção de uma criança de 5 anos, então qualquer mídia com mais de 45 minutos corre sério risco de ser ignorada caso falhe em prender a minha atenção.

Não farei mutio rodeio: a série em questão era nada mais, nada menos, que Cosmos: A Personal Voyage, criada e apresentada pelo lendário Carl Sagan, venerada por toda a comunidade astronômica, e provavelmente responsável pela inspiração de muitos grandes cientistas contemporâneos. Na verdade, eu não sei como consegui ficar completamente alheio da existência de Cosmos por tantos anos. Eu poderia culpar a alienação induzida pela mídia brasileira, ou a minha falta de interesse no assunto durante a adolescência, mas não, vou simplesmente supor que foi, nas palavras de Bob Ross, um acidente feliz.

Eu serei completamente honesto: o primeiro episódio de Cosmos, o seriado original, não passou no meu teste do intervalo de atenção. Não sei exatamente como explicar, mas acho que a sede de astronomia de um tolo iniciante como eu acabou cegando a minha capacidade de apreciação. Cosmos não era um documentário, muito menos um filme de ficção. Era uma poesia, uma obra de arte. Com o tempo, acabei deixando um pouco de lado essa fome bárbara por informação ruminada, e dei uma nova chance ao seriado. Com novos olhos, sentei na janela e simplesmente apreciei a viagem. Uma viagem pessoal, na nave da imaginação, sob os comandos de Carl Sagan.

Para a minha surpresa, alguns meses depois de eu ter tido aquela velha sensação agridoce de quando você assiste o último episódio de seu seriado favorito, eu receberia a notícia de que Cosmos seria atualizado, em uma nova versão comandada por um semi-pupilo de Sagan: Neil deGrasse Tyson, um dos maiores e mais respeitados comunicadores da ciência na atualidade (ao lado de nomes como Richard Dawkins e Stephen Hawking – pelo menos na minha cabeça viesada). Para o bem ou para o mal, a obra de arte estaria prestes a receber uma reforma pelas mãos que não as do autor original. Será que esta revisão representa de forma fiel o legado de Carl Sagan? Eu assisti o primeiro episódio de Cosmos: a Spacetime Odyssey e vou contar aqui minhas primeiras impressões.

O início do seriado remete fielmente às cenas iniciais do original, tudo está lá: as escarpas, o oceano, o dente de leão, o céu azul, e até mesmo uma breve aparição de Carl em uma composição 4:3, o padrão até alguns anos atrás. Mas as festividades nostálgicas se limitam a esta e apenas mais algumas passagens marcantes, como o calendário cósmico, que, desta vez, foi totalmente renderizado digitalmente e não necessitou de dinossauros de papelão. Segundo Ann Druyan, viúva de Sagan e uma das cabeças por trás de ambas versões de Cosmos, ele certamente apreciaria esta revisão do calendário cósmico.

As artes gráficas, que na versão original se limitavam a desenhos estáticos e astrofotos em baixa resolução (para os padrōes atuais) foram substituídas por animações tridimensionais com qualidade hollywoodiana. Apesar de ser aprazível aos olhos, alguém há de questionar a falta de espaço para o voo da imaginação do espectador, mas eu acredito que, mesmo com algumas lacunas preenchidas pela arte alheia, a mente criativa sempre encontrará um caminho livre para penetrar a mundos ainda mais ricos e extraterrenos.

Por outro lado, a narração foi provavelmente a maior mudança do seriado. Se antes as palavras de Sagan soavam como um recital da poesia do universo, um convite à exploração lenta e contemplativa de dentro para fora, o estilo mais extrovertido e interpessoal de Neil soa como uma narrativa mais dinâmica de J. R. R. Tolkien, um retrato da batalha cósmica iniciada há quase 14 bilhões de anos. A trilha sonora serve bem a esta nova direção, e ajuda a compor o tom de conto épico. Eu particularmente prefiro o estilo mais pessoal de Carl, mas o mundo mudou, e talvez esta tenha sido a melhor decisão a ser tomada dados os objetivos de Ann Druyan, que agora carrega o bastão, e certamente é a que mais combina com Tyson (ouça o podcast Star Talk, comandado pelo mesmo). Esta mudança é refletida até mesmo no título da série, que agora é coerentemente chamada de uma odisseia no espaço-tempo.

Apesar do novo estilo, houve um momento neste primeiro episódio que certamente há de afogar em prantos os mais sensíveis. Eu tenho que admitir que fiquei bastante emocionado ao ver o depoimento extremamente intimista de Neil sobre sua experiência pessoal com Sagan, e talvez o que impediu meus olhos de exsudarem lágrimas foi o fato de eu já conhecer a história.

Eu ainda poderia mencionar outros pontos interessantes sobre esse reboot de Cosmos, mas temo que possa estragar a surpresa e fascinação de quem ainda não teve a oportunidade de aproveitar essa maravilhosa viagem. Caso você nunca tenha visto Cosmos, o que está esperando? Para já de ler este artigo e o assista! A versão original (A Personal Voyage) está disponível gratuitamente na internet, e o reboot (A Spacetime Odyssey) estará também em breve, segundo a produção do programa; mas certamente, versões não oficiais já caíram na rede, e eu duvido muito que os idealizadores do programa iriam retaliar o seu interesse, então não há desculpas.

Fiquem tranquilos, passageiros, o legado de Carl Sagan está em ótimas mãos. Todos a bordo!

Atualização (22/03/2014): em uma entrevista recente, Neil Tyson afirmou que essa nova edição de Cosmos não é exatamente um reboot, mas sim uma continuação.

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