Como um dente de leão

Essa foi uma semana bastante movimentada em astronomia, e no meio acadêmico em geral. Desde a possibilidade da detecção direta da elusiva matéria escura até o ressurgimento da preocupação em torno do estado mental de profissionais acadêmicos, aí vão alguns links que vieram parar nos meus bookmarks nos últimos dias.

  • O pre-print de um estudo (uma espécie de artigo que ainda não passou sob revisão de especialistas, o chamado peer review) causou um certo alvoroço na comunidade astronômica, pois dava a entender que alguns sinais em raios-gama detectados na direção do centro da Via Láctea são teoricamente consistentes com a aniquilação de partículas de matéria escura. Os autores garantem que eliminaram todas as possibilidades que possivelmente explicariam essa detecção. Fiquemos de olho para ver como essa história continua após o peer review.
  • Uma astrofoto da galáxia ESO 137-001 (que estampa este post) andou pipocando por todo canto na internet. Ela consiste no empilhamento de imagens entre o espectro visível (dados do Telescópio Espacial Hubble) e do espectro de altas energias (do Observatório de Raios-X Chandra), mostrando uma incrível imagem que foi comparada a um dente de leão sob o vento: a galáxia em questão está “caindo” em direção ao aglomerado de Norma, chocando-se com o material intergalático e produzindo uma longa cauda que emite radiação de alta energia (e por isso só pode ser vista no espectro de raios-X).
  • A Supersimetria (também chamada de SUSY) foi proposta há aproximadamente 50 anos para tentar amarrar alguns dos nós soltos na Física fundamental. Este interessante artigo afirma que, apesar de ser teoricamente elegante e poderosa, SUSY falha epicamente na prática, pois até hoje não há provas experimentais que a sustentam. Isso é importante porque, depois do LHC, os próximos colisores de partículas (que buscam evidências para a Supersimetria) não serão mais risk-free, ou seja, não há garantia da produção de resultados. Como explicar isso aos possíveis investidores?… O que me leva ao próximo ponto:
  • O jornal The Guardian levantou uma questão importante sobre a saúde mental de acadêmicos,
      • Especialistas afirmam que há uma perversa cultura de aceitação, vista grossa e até supressão de situações que podem ser psicologicamente perigosas para pós-graduandos e PhD’s. Em busca constante de resultados e impacto científico (e.g., vide o item anterior), cientistas sofrem com isolamento, auto-dúvida, insegurança sobre o futuro e até mesmo assédio moral.
      • Um adendo que eu gostaria de adicionar: essa cultura permeia até mesmo entre o submundo da graduação e mestrado. Uma experiência própria que eu posso citar é um cartaz colado na sala de estudantes de mestrado na universidade onde estou estudando, que diz (em inglês): “se o trabalho parece ser esmagador, lembre-se que um dia você vai morrer”. Tal apelo penetra como uma lança em brasa. Ele está entre o elenco de argumentos para incitar os acadêmicos à exaustão, junto com o famoso discurso “seu trabalho é sua paixão“. Aonde foi parar o entusiasmo pela descoberta? Será que a ciência se tornou uma indústria?
  • Felizmente, ainda há motores que agem contra a corrente. Nesta semana estreia o reboot da reverenciada série Cosmos (e se você for tão fanático quanto eu, a referência “dente de leão” vai remetê-lo à série), apresentada originalmente pelo herói de todo astrônomo: o saudoso Carl Sagan. Sua tocha será carregada pelo não menos incrível Neil deGrasse Tyson. Aparentemente, Cosmos: A Spacetime Odyssey, vai ser transmitida quase ao mesmo tempo em mais de 170 países, nos canais Fox e National Geographic, o que significa que talvez passe no Brasil também. Se você é como eu e já abandonou essa antiguidade chamada de televisão, talvez fique feliz em saber que a série também vai ser lançada na internet, nas próximas semanas.
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