Nebulosa de Hélix: visível + infravermelho

Nebulosa de Hélix, como seria vista na ocular de um telescópio de 10 polegadas. Crédito: Las Vegas Astronomical Society

Nebulosa de Hélix, como seria vista na ocular de um telescópio de 10 polegadas. Crédito: Las Vegas Astronomical Society

Poucas pessoas sabem disso, mas eu tenho um hobby meio incomum para um cientista: eu gosto de trabalhar com imagens e desenhos digitais. Um fruto disso nasceu no ano passado, quando pratiquei (temporariamente) design de tatuagens e capas de CD (!). Foi uma experiência bastante legal, e eu pude conhecer um lado artístico que eu não sabia que tinha. Mais legal ainda foi o (modesto) conhecimento de processamento de imagens que eu adquiri.

Agora eu decidi dar uma reavivada nesse hobby, trazendo-o para o meu principal campo de interesse: astronomia. Meu objetivo é pegar algumas imagens obtidas por grandes observatórios, em diferentes comprimentos de onda, empilhá-las e dar uma “tunada”, de modo a produzir uma imagem que seria observada caso nossos olhos conseguissem enxergar em mais regiões do espectro além da luz visível.

Veja também: Enxergando a luz com diferentes olhos

O legal de ver um objeto em diferentes comprimentos de onda é que nós conseguimos ver detalhes que são invisíveis em determinadas frequências. Um exemplo disso é a própria Via Láctea: nós não enxergamos seu centro (que fica na constelação de Sagitário) porque a luz visível é espalhada pela poeira e gás nos braços da galáxia. No entanto, nas frequências do infravermelho, podemos ver claramente o bojo (centro) da Via Láctea.

Mas vamos ao que interessa. Para minha primeira tentativa, eu escolhi um objeto bastante conhecido para os astrônomos amadores: a Nebulosa de Hélix (Helix Nebula ou NGC 7293), também conhecido vulgarmente por “O Olho de Deus”.

Os originais são os seguintes:

OBS.: na fotografia obtida pelo Spitzer, é possível que a mancha de cor vermelho vivo no quadrante superior esquerdo seja um defeito. Eu não consegui encontrar nenhuma referência a uma possível fonte de radiação intensa em infravermelho naquele ponto.

No início do post, você conferiu como é a Nebulosa de Hélix através da ocular do telescópio. Só que as melhores imagens astronômicas são obtidas através de astrofotos, obtidas quando se expõe as lentes de uma câmera por um longo intervalo de tempo aos fótons emitidos por objetos no espaço. A seguir apresento o resultado do “empilhamento” de imagens da Nebulosa de Hélix em diferentes comprimentos de onda (visível + infravermelho próximo + infravermelho distante).

helix_nebula+spitzer

É possível notar que com a adição do infravermelho (IV), pode-se observar muito mais detalhes das estruturas da nuvem (como os nós cometários), além das fontes de IV fora da nebulosa (pontos vermelhos tênues, que possivelmente são galáxias distantes em redshift). Também pode-se notar que a região em torno do centro da nebulosa emite radiação no IV. Esta radiação central possivelmente é emitida pelo disco de poeira em colisão com o material nas regiões análogas ao Cinturão de Kuiper e à Nuvem de Oort existentes no Sistema Solar.  Hélix é uma nebulosa planetária, o estágio final de uma estrela parecida com o Sol após bilhões de anos consumindo seu combustível nuclear.

Veja também: Evolução estelar – envelhecimento e morte

Eu não sei se aquela estrela no centro da nebulosa é exatamente a anã branca que resultou da evolução estelar em questão, pode ser uma simples coincidência de haver uma estrela normal na linha de visada, pois as anãs brancas são bem pequenas e pouco brilhantes.

A nuvem de gás da nebulosa são na verdade as camadas externas ejetadas da estrela durante o final de sua vida. Não é a mesma coisa que uma supernova, pois esta é um evento cataclísmico. A ejeção da nebulosa planetária é um evento mais lento e menos energético. Essa nuvem é composta basicamente de hidrogênio e hélio, traços de nitrogênio, carbono e oxigênio e uma sujeirinha de elementos mais pesados, então acaba não enriquecendo (ou contaminando, se você for um pessimista) o espaço interestelar tanto quanto uma supernova.

Apesar de ser legal observar o céu em diferentes comprimentos de onda, talvez ver o mundo em, por exemplo, infravermelho, não seja tão interessante assim (do ponto de vista evolutivo), já que o fato de vermos apenas na região visível do espectro é uma adaptação evolutiva da espécie humana. Se nós enxergássemos nesse comprimento de onda, teríamos uma “visão térmica” (já que essa é a radiação emitida por objetos em temperaturas mais comuns ao nosso cotidiano), mais ou menos como as câmeras noturnas. Pelo menos é assim que eu imagino…

Nota: infelizmente eu não consegui trabalhar uma imagem em resolução maior (para ser usada como papel de parede, por exemplo), porque… bem, fazer isso exige uma máquina com um ótimo processador, o que não é o caso do meu PC (que gemeu mesmo com essa imagem de ~900×900 px). Assim que eu conseguir um processador melhor (o que talvez aconteça nesse ano), vou poder trabalhar com resoluções maiores.

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6 Respostas para “Nebulosa de Hélix: visível + infravermelho

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