Cientistas são arrogantes?

Em uma escala de 1 a Sheldon Cooper, quão arrogante você é?

Em uma escala de 1 a Sheldon Cooper, quão arrogante você é? Crédito: divulgação

Sheldon Cooper é, atualmente, um dos meus personagens favoritos da TV (ao lado de Gregory House, Dexter Morgan e Hank Moody). Ele consegue ser um tipo diferente de estereótipo, daqueles que têm um motivo para agirem como tal (ao contrário dos estereótipos “pobres de caráter”, que são do jeito que são pela maneira preconceituosa como os autores enxergam o mundo). E uma das suas características mais marcantes é a arrogância: mais do que comum é vê-lo fazendo pouco do trabalho de seus amigos ou exaltando o seu conhecimento sobre o Universo. É claro que há um certo exagero, necessário para dar o ar cômico à série, do contrário ela não duraria tantas temporadas.

Mas mesmo que ele seja o maior babaca que já pisou na Terra, é impossível sentir “maldade” nos seus comentários: parece que sua arrogância é algo intrínseco à sua personalidade, algo que ele não pode controlar, mais ou menos como um “mal necessário” para se tornar um gênio.

Voltando para o mundo real, os cientistas, geralmente, são tidos como pessoas bastante arrogantes quando se infiltram em meios mais populares. Eu estava assistindo um dos documentários do renomado biólogo Richard Dawkins alguns dias atrás (Root of all evil?), e eu fiquei meio incomodado com a maneira como os religiosos, e mesmo o público em geral, vê os cientistas. Não obstante, é comum ver pessoas declarando que Dawkins é arrogante ou até mesmo um defensor “fundamentalista” da ciência.

 

fundamentalismo
(fundamental + -ismo)

s. m.
1. [Religião]  Doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos.

2. Atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras

Primeiro, analisemos a questão mais crítica: seria Dawkins (ou outros cientistas como ele) um “fundamentalista”? Segundo o Dicionário Priberam, o fundamentalismo é caracterizado pela rigidez e obediência a determinados princípios ou regras. Note a palavra que eu marquei em negrito. Será que cientistas “obedecem” às regras impostas pela ciência? Bom, eu não posso falar por todos eles, mas a maioria dos que eu conheço são profissionais que fazem justamente o contrário: eles as questionam!

Se você assistir qualquer um dos documentários de Dawkins, faça isso com um caderno na mão. E anote o seguinte: quantas vezes ele força o público a acreditar no evolucionismo. Claro que isso depende da interpretação de cada um, mas em nenhum momento eu vi o biólogo empurrar a ciência garganta abaixo nas pessoas. Inclusive, no documentário The Genius of Charles Darwin, ele convida jovens estudantes a explorarem fósseis em uma praia, em busca de evidências para a evolução das espécies.

A ciência utiliza evidências constantemente. Esta é uma palavra muito repetida pelo biólogo, você também pode anotar no seu caderno quantas vezes ele a fala. Enquanto pessoas religiosas, geralmente, não gostam de encontrar evidências que contrariam suas crenças (tapam seus olhos e ouvidos ou se fazem de bobos), isso raramente incomoda um cientista.

Para religiosos, isto é um teste para a sua fé. Será que Deus errou na conta do carbono-14?

Para religiosos, isto é um teste para a sua fé. Será que Deus errou na conta do carbono-14?

Quando eu discuto a minha pesquisa com alguém, eu costumo dizer que não quero achar resultados que sejam perfeitamente encaixados com a teoria, porque (além de ser mais um motivo para pedir tempo em um observatório) isso é chato, não há novidades e o conhecimento permanece praticamente o mesmo. É legal quando a sua pesquisa produz um resultado totalmente inesperado! E é assim que a ciência avança. A física quântica (que faz funcionar o computador que você está usando para ler este texto) nasceu de incoerências das teorias anteriores com resultados de certos experimentos em laboratório, como a radiação de corpo negro.

Mas será que o fato de a ciência ter evidências que suportam as suas afirmações dá aos cientistas a carta branca para a arrogância? Eu penso que caímos novamente na questão de interpretação pessoal. Uma vez eu estava conversando com amigos meus em uma mesa de bar, e acabamos chegando em assuntos “espaciais”. Eu me lembro que devo ter passado por arrogante quando eu disse que confio muito mais nas evidências de a NASA ter mandado homens à Lua do que em um Zé Qualquer que fala que teve contatos com extraterrestres. Quando questionado sobre meu posicionamento, eu falei que as evidências para a primeira são muito mais sólidas do que para a segunda.

Fotos de homens na Lua podem ser forjadas? Diga isso às fotos de extraterrestres... se elas ao menos existissem! Crédito: NASA

Fotos de homens na Lua podem ser forjadas? Diga isso às fotos de extraterrestres… Ah, peraí, não existe nenhuma! Crédito: NASA

A questão das evidências é tão importante, que elas são usadas em sistemas judiciais! Já pensou se o Juiz acreditasse em um Zé Qualquer que disse que você roubou e matou uma velhinha de 72 anos? Você, obviamente iria querer que o tal rapaz apresentasse evidências para esta absurda afirmação. Eu costumo me perguntar: por que as pessoas não exigem evidências para a absurda afirmação de que somos descendentes de Adão e Eva? Elas simplesmente acreditam e tomam como verdade absoluta!

Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. – Carl Sagan

Ser suportada por evidências não torna a ciência “melhor” do que o dogmatismo religioso, mas se você está na busca pelo conhecimento do Universo e da sua própria vida, eu não penso que ler a Bíblia (ou qualquer outro livro sagrado) vai trazer as respostas mais coerentes com o que é observado. Digo, estes textos foram importantes para lapidar o nosso senso moral e a ética (mesmo que haja linhas de estudo que dizem que a estes aspectos são inerentes à evolução genética), mas eles não devem ser usados para explicar os aspectos mais complexos do Universo, porque simplesmente não condizem com a realidade. E isso não é arrogância, é uma questão de lógica e bom senso. Pena que nossos sistemas de ensino destroem o bom senso das crianças em poucos anos.

Eu acredito que as pessoas que não têm um mindset mais lógico têm dificuldades em lidar com ideias diferentes das suas. Contrariar suas crenças é uma ofensa, e acredite, eu já perdi amizades por causa disso. E é por isso que pessoas assim acabam achando que é arrogância. Quando alguém contraria a ciência, eu não me sinto nada ofendido e muito menos o chamo de arrogante. Quando alguém faz uma piadinha sobre nerds cientistas, eu até acho engraçado. Mas vá fazer uma piadinha sobre religião…

Respondendo a pergunta do título: a arrogância está na cabeça de quem interpreta. Lide com isso.

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