Compensa investir em viagens espaciais?

Astronauta Charles Conrad Jr., tripulante da Apollo 12, examina o robô Surveyor III, na Lua (1969). Crédito: NASA, Alan L. Bean

Essa é uma pergunta bastante ouvida por quem trabalha com ciências espaciais: não seria melhor usar o dinheiro de viagens espaciais caríssimas para tratar de assunto mais urgentes, como acabar com a fome no mundo ou encontrar a cura para o câncer?

Apesar de ser muitas vezes utilizada para tentar desmoralizar o trabalho sério de alguns cientistas e engenheiros, eu não penso que é uma pergunta ruim. Muito pelo contrário, ela pode acabar se desenvolvendo em uma discussão bastante interessante.

É perfeitamente possível de se entender uma preocupação como essas, afinal problemas urgentes como pessoas passando fome e crianças morrendo de câncer são preocupantes. Mas será que investir todos nossos esforços para tratar de assuntos urgentes é a melhor opção?

Vou fazer uma pequena analogia: o corpo humano possui incríveis sistemas de sobrevivência a condições extremas, e uma delas é a homeostase. Esse sistema faz a regulação de vários parâmetros físico-químicos de modo a manter o corpo em perfeito estado. No entanto, quando se encontra em uma situação de perigo extremo, como a hipotermia, o próprio corpo começa a concentrar a circulação nos órgãos mais importantes para a sobrevivência, sacrificando partes menos importantes, como os braços e as pernas.

Considerando que a humanidade como um todo funciona em homeostase, é de se supor que em uma situação de extremo perigo, como em períodos de glaciação, pandemias ou ameaça de impacto na Terra, nós tenhamos que fazer sacrifícios também, encaminhando o fluxo dos esforços para o tratamento do problema.

Isso pode soar bastante mesquinho, mas aparentemente, alguns dos problemas que existem atualmente, como a fome e o câncer, ainda não atingiram um estado suficientemente alarmante para gerar a necessidade de mudança do fluxo de esforços econômicos. Você pode se sentir enojado com esse tipo de posicionamento, mas ele faz parte da evolução genética: é esse mecanismo de homeostase que fez os humanos se tornarem bem sucedidos como espécie. Não se pode simplesmente abandonar o progresso genético dos nossos antepassados!

Autorretrato da Mars Rover Curiosity em solo marciano. A exploração do espaço é uma necessidade. Crédito: NASA/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems

Um outro ponto de vista a ser analisado é o seguinte: será que vale a pena convergir nossos esforços econômicos para solucionar apenas um (ou poucos) problemas? Se você perguntar a um acionista ou a um agricultor, certamente ele dirá que não. Mas, por quê?

Acionistas precisam ter seus investimentos pulverizados em vários setores, do contrário um abalo em um setor específico em que ele eventualmente tenha toda a sua carteira investida acarretará na falência dos seus negócios. Já um acionista que investiu em vários setores será afetado fracamente por uma  crise setorial.

O mesmo vale para agricultores: uma eventual praga pode devastar toda uma plantação e destruir a colheita anual. Já um agricultor inteligente terá cultivado vários produtos diferentes, e certamente terá menos problemas que o praticante de monocultura.

Trazendo essa linha de pensamento para a tecnologia em geral, pode-se chegar a conclusão de que o investimento em apenas um (ou poucos) setores pode nos levar a ruína. Imagine se conseguimos livrar o mundo da fome, mas não somos capazes de nos defender de um eventual desastre natural por falta de investimento em tecnologia?

A exploração do espaço é uma necessidade, sempre foi! Cristóvão Colombo certamente foi ridicularizado pela sua ambição de descobrir uma nova rota para as Índias. Mas olhe para as Américas hoje, e ouse dizer se não valeu a pena.

Algumas pessoas podem achar que astronomia é perda de tempo, mas se esta pessoa, assim como outros bilhões, usa uma câmera digital, ela deveria ter o mínimo de gratidão pelo desenvolvimento dos chips CCD graças aos astrônomos. Alguém poderia dizer que olhar para o céu com equipamentos mirabolantes não produz nada de útil. Esse alguém ainda não se deu conta de que radiologistas usam o processo de leitura de ondas de rádio desenvolvido por astrofísicos para melhorar o índice de detecção de câncer de mama. Relatividade é coisa de doido? Só serve para ficção científica? É bruxaria? Então você não pode acreditar em GPS’s, que usam efeitos da relatividade para calcular com precisão o seu posicionamento na Terra.

Técnicas de mamografia utilizam processos desenvolvidos pela radioastronomia para aumentar a detecção de câncer

Eu poderia citar inúmeras peças de tecnologia que fazem parte da nossa vida hoje, mas que o público em geral não dá o devido valor ao que foi feito pela ciência. É preciso entender que tecnologia não cai do céu! Ela vem de esforços em múltiplas áreas de conhecimento, de ideias que somente as mentes mais criativas puderam ter, e de investimentos que somente os mais intrépidos tiveram coragem de fazer.

O que eu, e outros milhões de cientistas, queremos dizer, é que sem o desenvolvimento e a pesquisa em diferentes campos de conhecimento, o nosso desenvolvimento como espécie se torna estagnado. Nós estamos aqui hoje, povoando esse pálido ponto azul no meio do espaço, graças aos esforços de nossos antepassados em criar diferentes tecnologias, explorar o desconhecido e solucionar nossos problemas. Não podemos deixar a peteca cair.

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2 Respostas para “Compensa investir em viagens espaciais?

  1. Quando se pergunta a um cientista para que serve sua pesquisa, o verdadeiro cientista responde que primeiro ele tem que descobrir o que é que ele está estudando, para depois poder pensar se vai servir para alguma coisa. Se você começa pensando na finalidade, pode acabar fechando os olhos para outras possibilidades.

    • Esse é um ponto bem importante! Cientistas (normalmente) são movidos pela curiosidade. Mas eu tenho contato com outros físicos (principalmente da área de materiais), e muitos deles parecem ser movidos pela vontade de encontrar curas para doenças ou mesmo criar novas tecnologias, ou pelo menos é essa impressão que eu tive de seus trabalhos. Mas eu concordo com você, pensar somente nas finalidades pode cegar um cientista.

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