Como seria morar em Júpiter?

Imagem em infravermelho de Júpiter obtida no Very Large Telescope (VLT). Crédito: ESO/F. Marchis, M. Wong, E. Marchetti, P. Amico, S. Tordo

Nesta semana, o planeta Júpiter foi o centro das atenções de muitos astrônomos e entusiastas. Quem acompanha notícias científicas, muito provavelmente deve ter ficado sabendo da colisão de um objeto com o gigante gasoso: talvez tenha sido um pequeno asteroide ou um cometa.

Um episódio semelhante ocorreu em 1994, quando o cometa Shoemaker-Levy se despedaçou e despencou em Júpiter, criando “feridas” na alta atmosfera joviana, que eram visíveis em telescópios na Terra. Aparentemente, o choque que ocorreu nesta semana não deixou marcas, mas o brilho durante o episódio ficou bastante evidente em um vídeo gravado pelo astrônomo amador George Hall.

Seria isso mais um sinal para o fim do mundo? Erm, não necessariamente. Colisões entre asteroides, cometas e planetas é algo muito comum em grandes escalas de tempo (milhões de anos). Aliás, uma das teorias para explicar o aparecimento da água na Terra se deve a passagens e colisões de cometas com o protoplaneta. No caso de Júpiter, esses episódios são ainda mais comuns. Isso se deve à enorme massa do planeta, que cria um campo gravitacional muito intenso e atrai objetos menores para serem devorados. De fato, isso já deve ter salvado a Terra de muitos objetos que potencialmente causariam extinções em massa. Então, hoje a noite, olhe para a constelação de Touro e agradeça ao deus romano Júpiter por nos conceder mais alguns milênios de vida aqui nessa pequena rocha azul.

Júpiter é um planeta que desperta bastante a minha curiosidade, por ser algo tão distante de nossa realidade. Desde a minha infância eu ficava tentando imaginar como seria “viver” no gigante gasoso. Um dos primeiros problemas a se enfrentar seria o fato de ele não possuir superfície. Júpiter não tem chão! Pelo menos não no meu conceito de chão: alguns modelos sugerem que ele possua um núcleo rochoso, mas ele fica nas profundezas do planeta, em condições absurdamente inóspitas.

O que nós vemos aqui da Terra são as suas nuvens, que se estendem até algumas camadas mais internas. Essas nuvens são compostas de hidrogênio e hélio em sua maior parte, com traços de metano, amônia e uma pequena fração de água (que causa relâmpagos). As partes mais internas do planeta são compostas de hidrogênio molecular e até mesmo hidrogênio metálico líquido.

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu adoro videogames. Uma das coisas legais sobre esta forma de entretenimento é que eles nos proporcionam a chance de experimentar uma realidade completamente diferente da nossa. O jogo Metroid Prime 3: Corruption usou uma ideia interessante para retratar uma sociedade que viveu em um planeta gigante gasoso: cidades que flutuam sobre as nuvens.

É impressionante o nível de detalhamento implementado no jogo: os desenvolvedores procuraram retratar a atmosfera tempestuosa do planeta, com constante descarga de relâmpagos, mais ou menos como acontece em Júpiter.

Em Cosmos: A Personal Voyage, uma premiada série de TV criada pelo magnífico cientista natural Carl Sagan, ele sugere que uma possível forma de vida em um planeta gigante gasoso parecido com Júpiter poderia consistir de células reprodutoras (sinkers) que vivem nas camadas mais externas, ou então de enormes balões orgânicos (floaters), que vivem em bandos e são caçados por seres planadores (hunters). Sagan ainda ressalta que a Física e a Química permitem tal configuração, então definitivamente não é uma ideia absurda. De fato, grandes descobertas das ciências foram concebidas em grande parte devido à imaginação e à criatividade.

O tamanho, a massa e a composição química de Júpiter sugerem uma possibilidade interessante: seria ele, na verdade, uma estrela que falhou? O Sol também é composto, em sua maior parte, de hidrogênio e hélio, a diferença é que este conseguiu acumular massa o suficiente para iniciar a “ignição” do hidrogênio, criando uma série de reações nucleares em cadeia.

Concepção artística para uma estrela binária com uma anã marrom.

Os atuais modelos de evolução estelar sugerem que estrelas de até 0,08 massas solares conseguem dar início a reações nucleares, e objetos menos massivos se tornam anões marrons. Júpiter tem cerca de 0,00096 massas solares, o que fica bem abaixo do mínimo para se tornar uma estrela. Mas no caso de ele ter adquirido uma massa 100 vezes maior, o Sistema Solar teria se tornado um sistema binário. O problema é que provavelmente a maior parte da massa do disco protoplanetário teria sido usada para a construção de Júpiter-estrela, então não sobraria quase nada para formar os outros planetas gasosos, e talvez o surgimento de planetas rochosos fosse bastante dificultado.

Júpiter é um dos objetos mais bonitos para se observar no céu, principalmente se você tiver um telescópio: com a devida magnificação e boas condições de observação, talvez você consiga até mesmo ver a grande mancha vermelha. As luas galileanas Io, Ganímedes, Calisto e Europa são facilmente identificáveis. Esta última possui uma relativa alta possibilidade de existência de vida extraterrestre, devido à provável existência de oceanos subterrâneos quentes o suficiente para tal.

No fim de setembro, Júpiter vai começar a ficar visível durante o início da noite, na constelação do Touro. Talvez nenhum humano chegue a morar lá algum dia, mas nada nos impede de apreciar a beleza deste planeta daqui mesmo.

Anúncios

2 Respostas para “Como seria morar em Júpiter?

Fique à vontade para comentar, aqui não há certo ou errado, nem censura de ideias. Mas, por favor, seja claro e, acima de tudo, use pontuação. Comentários ininteligíveis ou ofensivos não serão publicados.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s