Lua azul e uma digressão sobre calendários

Hoje acontece o “fenômeno” chamado de Lua Azul (Blue Moon), que nada mais é do que uma segunda lua cheia no mesmo mês… É, só isso. É claro que uma notícia como essa pode vir carregada de misticismos e previsões astrológicas, mas para a astronomia, é só mais uma lua cheia como outra qualquer.

O que eu acho mais interessante num fenômeno como esse é que ele mostra o quão esquisito é o nosso sistema de datação, o calendário gregoriano. Nos tempos antigos, um ciclo da Lua era a medição do mês: você já deve ter ouvido falar por aí em expressões como “há algumas luas atrás”. O calendário que nós usamos atualmente é baseado no romano (usado desde o séc. VIII até o I a.C.), que marcava 1 ano a cada dez ciclos lunares (Março a Dezembro), totalizando 304 dias; o interessante é que o inverno não entrava na contagem, pois eram considerados dias improdutivos, e não necessitavam de numeração: eram dias em branco (ba-dum-tiss!).

A partir daí, foram feitas diversas reformas no calendário romano: adicionaram os meses de Janeiro e Fevereiro, diluíram um mês intercalado no fim de Fevereiro durante alguns anos, tentaram ajustar as efemérides nessa bagunça toda, gerando o que chamamos de calendário luni-solar. Para acabar com essa zona, o imperador Julio César decidiu instituir um calendário solar, posteriormente chamado de juliano.

Uma das modificações mais bizarras foi a introdução de dois meses extras no ano de 46 d.C. (posteriormente conhecido como “Ano da Confusão”), chamados de Unodecembris e Duocembris. Foi mais ou menos nessa época que implantaram os famosos anos bissextos, uma gambiarra criada para ajustar a diferença que ocorria com o passar do tempo. Os meses Julho e Agosto têm esse nome como forma de homenagem aos imperadores Julio César e Augusto, responsáveis pelas correções no calendário.

Mas ainda não para por aí, pois a Igreja ainda teria que meter um de seus dedos no calendário para bagunçar ainda mais a nossa vida. Em 1582, o Papa Gregório XIII reuniu uma equipe de “especialistas” para fazer as correções no calendário, e proibiu as gráficas de fazerem impressões do mesmo sem autorização da Igreja (!).

Entre as mudanças, teve o completo desaparecimento de 10 dias no mês de outubro de 1582; é isso mesmo que você está pensando: um dia era 4, e o outro já era 15, não pode ser mais bizarro que isso! E para chutar o pau da barraca (que já estava uma zona franciscana) fizeram uma gambiarra em cima de outra gambiarra: os anos seculares (1800, 1900, 2000 etc.) bissextos agora só ocorreriam quando fossem múltiplos de 400.

Tudo isso resultou em um ano com 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos… o que é o fim da picada. Mas é o que a sociedade moderna usa, então temos que nos juntar a eles. É por causa de tudo isso que nós temos meses com semanas quebradas, o que gerou a lenda (?) da Lua Azul. Lembre-se de, hoje à noite, olhar para o céu e comemorar o grande evento da bagunça de calendários!

O mais curioso disso tudo é que o calendário maia (aquele do fim do mundo!) é bem mais preciso que o gregoriano. O que é de se esperar, visto que ele foi criado por uma sociedade que utilizou ciência de verdade e observações para tal, ao contrário dos europeus, que usavam… errm, sinceramente, eu acho que eles tinham fumado um ópio quando fizeram todas essas gambiarras.

Seria legal se nós utilizássemos toda essa propaganda de fim do mundo como uma maneira de introduzir à sociedade “moderna” o calendário maia, eliminando esse misticismo em torno dele. Infelizmente, a mídia popular não ajuda em muita coisa: eu ainda não acredito que teve um episódio do Globo Repórter que deu crédito a esses caras que acreditam piamente no fim do mundo, e que nós deveríamos nos proteger. Se eu não me engano, tem até um (ou vários) sujeito que construiu uma base subterrânea para se proteger!

A maioria das pessoas tem medo do desconhecido, então não é de se estranhar toda essa comoção em torno do calendário maia. Mas você não precisa ter medo da Lua Azul! É a mesma Lua de sempre, com a mesma cor, com as mesmas crateras, a uma distância segura da Terra, tudo do jeito que sempre foi. E hoje à noite, lembre-se de levantar seu copo em homenagem ao grande astronauta Neil Armstrong, que viu a Lua como pouquíssimos humanos conseguiram ver.

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