Essencial: Plêiades

Crédito: NASA/ESA/AURA/Caltech

Plêiades provavelmente é o aglomerado estelar mais conhecido de todos, e também é facilmente reconhecido em fotos, pois tem um formato bem peculiar. Visível a olho nu mesmo em locais com poluição luminosa, localiza-se na constelação de Touro, e neste momento é um prato cheio para os observadores que cedo madrugam.

Segundo a mitologia antiga, Plêiades eram as irmãs Maia, Electra, Alcyone, Taygete, Asterope, Celaeno e Merope, que após um encontro com o caçador Órion, se tornaram seu objeto de desejo, e este passou a persegui-las pela Terra. Para poupá-las desse sofrimento, o deus Zeus as transformou em pombas, que voaram para o céu, se tornando um grupo de estrelas.

Mas chega de papo furado, porque agora vem a parte mais legal: o que a astronomia e astrofísica sabem sobre este aglomerado? Plêiades é um aglomerado aberto, um dos mais próximos do Sistema Solar, formado por várias estrelas gigantes azuis (muito quentes e luminosas). Cálculos estimam que as estrelas do Aglomerado de Plêiades tenham surgido há cerca de 100 milhões de anos, e que elas permanecerão ligadas pelos próximos 250 milhões de anos.

Os aglomerados abertos são o resultado da formação estelar que ocorreu recentemente. Por exemplo, outros aglomerados como Híades (também em Touro), AB Doradus (na constelação de Dourado) e Beta Pictoris (na constelação do Pintor) são grupos de estrelas ligadas gravitacionalmente que possuem a mesma composição química, a mesma idade e a mesma velocidade, o que sugere que elas foram formadas pela mesma nuvem cósmica. É nessa hora que a mitologia antiga faz um pouco de sentido: as estrelas de Plêiades (e de outros aglomerados também) são realmente irmãs.

Na imagem lá do começo, dá para perceber uma certa nebulosidade entre as estrelas de Plêiades. Isso pode nos levar a pensar que esse gás e poeira é o material que sobrou da formação estelar do aglomerado, material esse que acabou não entrando na composição das estrelas. No entanto, com uma idade de 100 milhões de anos, todo o gás e poeira já teriam sido dispersos pela pressão de radiação das estrelas, o que sugere que é apenas um material do meio interestelar pelo qual o aglomerado está coincidentemente passando nesse momento. Cientistas não gostam de coincidências, mas eu acho que nesse caso é válido.

Imagem em infravermelho, obtida pela missão Spitzer, da nuvem de material interestelar que envolve o aglomerado de Plêiades. Crédito: NASA/JPL-Caltech/J. Stauffer

Mas peraí, se os aglomerados abertos são compostos por estrelas irmãs, isso significa que o nosso querido Sol também já fez parte de um? E mais ainda, seria possível encontrar alguma irmã do Sol por aqui? De fato, a nossa estrela muito provavelmente já fez parte de um aglomerado aberto, há alguns bilhões de anos atrás. É legal imaginar que, se o Sol teve estrelas irmãs gigantes, estas já devem ter explodido em supernova há muito tempo atrás, e o material resultante dessas explosões já deve ter dado origem a outras estrelas.

Sobre as irmãs que eventualmente estejam vivas, ainda não foi encontrada nenhuma boa candidata. Aparentemente, todas as estrelas próximas ao Sol e as mais brilhantes no céu não possuem muito em comum com a nossa estrela, principalmente quando se trata em composição química. O Sol é bem velho, com 4,6 bilhões de anos, e nesse tempo, é provável que suas irmãs já tenham se dispersado para as mais diferentes regiões da Via Láctea, em locais que nossos telescópios talvez nunca consigam enxergar. Mas não se pode perder a esperança, certo?

Seja a olho nu, binóculos ou telescópios de fundo de quintal, observar Plêiades revela apenas algumas estrelas. No entanto, as observações feitas com as mais poderosas ferramentas da astronomia, e os melhores métodos estatísticos da astrofísica revelam que este aglomerado tem mais de 1000 objetos, todos ligados em uma região de raio de aproximadamente 8 anos-luz, e este número não inclui as possíveis estrelas binárias (uma configuração muito mais corriqueira do que o nosso senso comum chega a avaliar). A maior parte desses objetos provavelmente são estrelas de diferentes massas, mas como foram formadas pela mesma nuvem cósmica, devem possuir a mesma idade, mesma composição química e a mesma velocidade.

Se você leu o meu primeiro artigo sobre evolução estelar, deve se lembrar das anãs marrons. São aqueles objetos que, durante a formação estelar, não adquirem massa suficiente para iniciar as reações nucleares. Uma boa parte dos objetos que compõem o aglomerado de Plêiades são anãs marrons, e não obstante aparece um estudo que confirma ainda mais indivíduos. Durante observações feitas em 2009 nas extremidades do aglomerado de Plêiades, acabaram surgindo algumas estrelas candidatas a anãs marrons. Um estudo recente fez uma análise profunda dos dados obtidos, e acabou chegando à conclusão que na verdade não se tratavam de anãs marrons, e mais ainda: elas nem estavam ligadas ao aglomerado, eram estrelas anãs de fundo. Este é um dos desafios no estudo de aglomerados estelares: identificar as estrelas que de fato fazem parte do grupo daquelas que estão na frente ou atrás da linha de visão.

Estudar aglomerados estelares é uma das coisas mais produtivas de se fazer em astronomia. Os poderosos telescópios que são instalados por aí, com as diferentes técnicas que surgem com o passar do tempo, nos dão oportunidade de enxergar cada vez mais longe e em mais detalhes. E caso um astrônomo descubra um novo aglomerado, ele tem a chance de dar o nome que quiser para o objeto. Talvez não chegue a ser tão famoso quanto Plêiades, mas só de você poder ter seu nome marcado na história da ciência, isso é uma oportunidade que poucos têm.

Localização do Aglomerado de Plêiades na constelação de Touro (clique para ampliar). Fonte: Stellarium

Anúncios

Fique à vontade para comentar, aqui não há certo ou errado, nem censura de ideias. Mas, por favor, seja claro e, acima de tudo, use pontuação. Comentários ininteligíveis ou ofensivos não serão publicados.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s